AOS PÁSSAROS DO CÉU
Clóvis Ramos
Aos pássaros do céu dá Deus o alimento.
O ouro e a prata, que brilham em vossa mão, transformai-os em roupa e comida para aqueles a quem isso faz falta.
Fazei-o e o vosso gesto será abençoado.
Daí todos vós, que podeis produzir. Daí o vosso gênio, a inspiração, o coração, e Deus vos abençoará.
Há por aí agora gente que tem a mesa sem pão, o fogão apagado, o leito sem lençóis.
Não vos digo o que vos cumpre fazer: trago, apenas, a iniciativa de vossas orações; se vos traçasse a linha de conduta, privar-vos-ia do mérito do vosso ato beneficente.
Digo-vos, somente: “Eu sou a caridade a vos estender as mãos pelos vossos irmãos sofredores”.
Dois homens acabavam de morrer.
Deus houvera deliberado que, enquanto eles vivessem, meteria num saco as suas boas ações e, à sua morte, pesaria os sacos.
Quando lhes chegou a última hora, Deus mandou vir os invólucros.
Um era pequenino, estreito, mostrando apenas umas raras moedas no seu conteúdo.
Cada um dos homens reconheceu o seu saco.
“Eis aqui o meu, disse o primeiro; bem o conheço; fui rico e dei muito”.
“Aqui está o meu, disse o segundo. Fui muito pobre, nada tive para repartir”.
Mas, oh! Surpresa! Postos na balança, o maior ficou leve e o pequeno tornou-se pesado, fazendo pender a outra concha da balança.
Então Deus disse ao rico: “Tu deste muito, sim, mas fizeste-o por ostentação e para ver o teu nome figurar nos templos, além de que deste sem te privares de nada.
Vai para a esquerda, e fica satisfeito em te ser contada a esmola como coisa de pequena monta”.
Depois disse ao pobre: “Bem pouco deste, mas cada uma das moedas que aqui estão na balança representa uma tua privação.
Se não deste esmolas, fizestes o bem, e ainda melhor - praticaste espontaneamente a caridade, sem cuidar que te seria ela levada em conta.
Foste indulgente, não julgaste o teu próximo, ao contrário, relevaste as suas más ações. Passa à direita, e vai buscar a tua recompensa”.
Todos podeis dar, qualquer que seja o vosso meio, pois tendes sempre alguma coisa que é fácil de repartir. Seja do que for que Deus vos deu, deveis uma parcela àquele a quem falte o necessário, porque no seu lugar gostaríeis que outrem repartisse convosco. Serão menores os vossos tesouros na Terra, mas os do céu hão de ser abundantes.
Lá recolhereis ao cêntuplo o que aqui semeardes.
A piedade é a virtude que vos aproxima dos anjos.
É a irmã da caridade que vos conduzirá a Deus.
Deixai o vosso coração enternecer-se diante das misérias e sofrimentos der vossos irmãos.
As vossas lágrimas serão um bálsamo que derramareis sobre as suas feridas, e quando por terna simpatia logrardes levar-lhes a esperança e a resignação, que prazer não sentireis, então!
A piedade, quando bem sentida, é amor.
O amor é o devotamento; o devotamento - esquecimento de si mesmo. Este esquecimento, esta abnegação pelos infelizes, é a virtude por excelência, a que foi praticada pelo divino Messias durante toda a sua vida, e que Ele ensinou na sua santa e sábia doutrina.
Não abafeis, jamais, em vosso coração, a celeste emoção da piedade nem façais como os egoístas endurecidos, que fogem dos aflitos, porque a contemplação das suas misérias lhes perturbaria por momentos a alegria da existência.
Nunca deveis ficar indiferentes, quando puderdes ser úteis.
A tranqüilidade adquirida à custa de indiferença, é como a do Mar Morto, que esconde no fundo das águas a vasa fétida e a corrupção.
A vossa alma experimenta, ao contrário da infelicidade de outrem o mergulhando em si mesma, um sobressalto espontâneo e profundo, que a sacode e a afeta penosamente. Mas a compensação é grande, quando conseguis transmitir a coragem e a esperança a um irmão inditoso, que sente a pressão da mão amiga e cujo olhar, a um tempo orvalhado de lágrimas de emoção e reconhecimento, se volta docemente para vós, antes de o fixar no céu, a fim de agradecer o haver-lhe enviado um apoio consolador.
Fazer o bem para receber testemunhos de reconhecimento não é agir com desinteresse, e o benefício desinteressado não é o único agradável a Deus.
Vai nisso também orgulho, por se comprazerem na humilhação do favorecido, que há de prostrar-se aos seus pés com a gratidão.
(Fonte: O Perfume do Evangelho, de Clóvis Ramos)
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