O canto do sabiá
Ele chega no alto do muro, todas as manhãs.
Exceção daquelas de chuva torrencial.
Nesses dias, somente aparece quando a chuva se vai.
*
Ele se posta exatamente na direção da janela do escritório onde trabalho.
Anda um pouco de um lado a outro.
Parece olhar para mim.
*
Na verdade, tenho certeza que me olha.
E então, solta seu canto.
É o meu companheiro sabiá.
*
Não vem a esse local porque o alimento, considerando que é no meio do
jardim, do outro lado da casa, que coloco a ração diária para ele e todos os
pássaros que queiram.
A maioria deles, habitando a árvore em frente à casa, há bastante tempo.
*
Ou seja, desde que o pequeno arbusto se transformou em uma árvore alta,
cheia de galhos e folhas.
Árvore que tenho o cuidado de zelar toda vez que os funcionários da
Prefeitura vêm realizar a poda.
*
Supervisiono o serviço, não permitindo que cortem galhos em excesso, em
especial aqueles em que estão construídos os preciosos ninhos.
*
Não sei se o sabiá sabe disso tudo.
Nunca contei nada a ele.
*
Mas quando ele vem cantar em frente à minha janela, eu o cumprimento: Oi,
amiguinho, já chegou?
Qual a sinfonia para hoje?
*
E depois dele alegrar o meu coração, parte voando.
Sei que não o verei mais até o dia seguinte.
*
Alguns dirão que tudo isso é coincidência.
Nada demais.
Talvez o sabiá goste daquele pedaço de muro por algum motivo.
Eu, sinceramente, acredito que se trata de gratidão de uma ave que se
alimenta todos os dias, em meu jardim.
*
Mais do que isso, eu vejo a manifestação Divina nesse pequenino ser.
É Deus que me diz, com o seu canto, que sou Seu filho, uma pessoa
importante nesta Terra.
*
Por isso, ergo minha prece em gratidão e trabalho com o coração mais
alegre, a mente mais desperta, os dedos mais ágeis.
*
Quantos de nós recebemos, todos os dias, dádivas semelhantes e não nos
damos conta?
Que tal começarmos a prestar atenção?
*
Deus tem maneiras simplesmente criativas de nos alcançar: na brisa que
brinca em nossos cabelos, na chuva que cai, permitindo que a terra exale aquele
seu perfume peculiar de quem recebeu uma dádiva e agradece.
*
Ou talvez através de uma ave que cante em nossa janela ou nas
proximidades.
Deus a tudo preside e nada esquece.
*
Prestemos mais atenção ao nosso entorno e descobriremos, todos os dias,
inúmeros motivos para sermos gratos ao Pai que nos ama e manifesta isso de
multiplicadas maneiras.
* * *
No ruído longínquo do mar, na paisagem solitária, nas águas que murmuram,
no sono das florestas, na altivez das montanhas, Deus assinala a Sua presença.
Na poesia das flores, nas calmas noites estreladas, no brilho da lua,
podemos perceber a excelência do Autor Divino.
Para a alma sensível, tudo respira e transpira Deus, o que levou o
salmista Davi a escrever que os céus declaram a glória de Deus e o firmamento
anuncia a obra das suas mãos.
Cerremos os olhos, paremos um pouco e nos permitamos sentir o suave toque
de Deus em nossa alma, agora, enquanto morrem os acordes musicais.
Redação do Momento Espírita, com transcrição de Salmos de Davi, cap.
19, vers.1.Disponível em www.momento.com.br