quarta-feira, novembro 25, 2015

Doces reencontros - Momento Espírita



Doces reencontros



Verdadeiramente, vivemos tempos novos sobre a face da Terra. 


Tempos em que, a cada dia, nos deparamos com seres especiais reencarnados entre nós.


Não importa a raça, a nacionalidade, o credo religioso ou crença alguma. 


Eles são especiais. 


Trazem conceitos espiritualizados a respeito da vida, do mundo, do destino final das criaturas de Deus.


Contou-nos uma amiga que sua filha, na inocência dos seus três anos de idade, certa noite, aconchegou-se na cama, ao seu lado.


Em verdade, toda noite era assim. 


A menina vinha para sua cama e ali se deitava por alguns minutos, antes de se encaminhar para o próprio berço. 


Nesses momentos, contou-nos a mãe, era que diálogos sempre interessantes aconteciam.


Alguns que a surpreendiam, sobremaneira. 


Era como se aquela criança, que trazia o azul do céu em duas joias brilhantes na face, se pusesse a pensar, mergulhando na doçura e na sabedoria de um passado intensamente vivido.


Mamãe, antes de eu nascer eu era anjinho?


A mãe ficou a imaginar como deveria responder. 


E resolveu adentrar no clima da inocência infantil, concordando.


E antes de você ser mamãe, onde você morava?


Pacientemente, e alongando o diálogo, a mãe respondeu que morava com seus pais, avós da pequena. 


Enriqueceu com detalhes, dizendo da casa grande, de janelas azuis, o imenso jardim, em outra cidade, bem longe.


Mas, mamãe, e antes de você ser filha do vovô e da vovó, você era anjinho como eu, né?


Acho que sim, foi a resposta breve daquela jovem que ficou a cogitar aonde iria parar aquele raciocínio todo. 


Então, a garotinha desatou a falar:


Pois é, mamãe, você estava no céu, junto comigo. 


Aí, você nasceu e eu fiquei lá. 


Depois, papai do céu falou para eu escolher minha mamãe. 


E eu escolhi você. 


Viu, agora estamos juntas de novo.


A conversa parou. 


Os olhos da mãe se transformaram em pérolas de luz e duas lágrimas brilharam, rolando pela face.


Ela estreitou seu tesouro junto ao coração. 


E enquanto a pequena se acomodava para o sono, ela se pôs a pensar:


Quantos filósofos se detêm anos a estudar os mistérios da vida que nunca morre, da vida que se repete na Terra, no espaço, em outros mundos.


Estudam a doutrina secreta dos hindus, egípcios, gregos para encontrarem essas verdades que, até hoje, muitos homens não admitem, considerando simples tolices.


No entanto, a sua pequerrucha, na extraordinária sabedoria de um Espírito milenar, revestido de carne, ali, descontraída e singelamente, sintetizara a trajetória de dois Espíritos que se amam.


Dois espíritos que, possivelmente, estabeleceram laços de afeto há milênios e se propuseram a prosseguir na conquista do progresso, assim, lado a lado. Ora como mãe e filha. 


Ora... quem sabe como?


*   *   *


O maior Sábio que já visitou a Terra, ensinou: 


Quem é minha mãe? 


Quem são meus irmãos?


E olhando para os que estavam sentados à roda de si: eis aqui, lhes disse, minha mãe e meus irmãos. 


Porque o que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, e minha irmã e minha mãe.


Estabeleceu ali a grande verdade de que todos somos uma grande e só família: a família universal.


Vamos estreitando laços, estabelecendo pontes de amor e nos reencontrando, aqui, nesta vida; acolá, na Espiritualidade e outra vez mais.


Pensemos nisso: 


quantos reencontros estamos tendo nesta vida?





Redação do Momento Espírita, com base em  fato e citação  do Evangelho de Mateus,  cap. 12,  versículos 47 a 50.Disponível em www.momento.com.br.

Mensagem da árvore - Eros





Mensagem da árvore

Eros


O aprendiz da vida sentia-se cansado.


Em toda parte havia experimentado a incompreensão alheia e a dor se lhe agasalhava na alma.


Pelos caminhos percorridos suportara as dificuldades, padecendo pedradas morais e sarcasmos.


Se sorria, era tido por tolo; quando se recolhia à meditação, era apontado como alienado.


Os dias constituíam-lhe desafios difíceis e as noites se transformavam em períodos insones de amargas reflexões.


As aparentes alegrias, quais rosas exuberantes, ocultavam espinhos que o picavam.


Foi numa dessas reflexões angustiosas, que se deu conta das próprias dores e planejou desistir...


Atraído por uma árvore frondosa e bela, recolheu-se à sua sombra e, porque se sentisse vencido, pensou em dar cabo da própria vida.


Enquanto planejava o desatino, pareceu escutar a voz da árvore altaneira, que lhe disse:


“ - Amigo, ouve-me! 


À tua semelhança, cresci suportando dificuldades. 


Quando era frágil temi morrer mil vezes, esmagada ou arrancada, sem vitalidade nem confiança no futuro.


A vida, que em mim pulsava, lentamente enrijou-me o lenho, fazendo-me dobrá-lo quando rugiam as tormentas, a fim de não sucumbir, logo refazendo a postura e insistindo com coragem.


O desdobrar dos ramos atraiu aves que se aninharam em meus braços buscando amparo.


Vendavais inesperados feriram-me,arrancando-me galhos e ameaçando-me o tronco.


Raios perigosos caíram próximos de mim, abalando-me profundamente até às raízes.


Quando comecei a florir e frutescer, desocupados apedrejaram-me sem consideração nem piedade, numa fúria cruel.


O sol queimou-me por longos períodos e a chuva encharcou-me vezes sem conto...


Passada cada estação recompunha-me sem desânimo, confiando na vida.


Partes de mim foram retiradas e hoje adornam vários lares.


Dilaceraram-me com machados afiados, serras elétricas, plainas e pequenos canivetes abrem-me letras que cicatrizam no meu tronco...


É possível que, um dia, arranquem-me daqui e me transformem em tábuas ou vigas fortes e os meus ramos frágeis se tornem combustíveis. 


Eu, todavia, esperarei, confiando na vida e tudo fazendo para prosseguir até que termine o meu ciclo e retorne ao solo amigo, donde emergi, sabendo que as minhas sementes permanecerão repetindo a minha experiência por tempos sem fim.


Medita, amigo, e bendize as tuas dilacerações, prosseguindo até o momento em que a libertação natural te chegue e te faça voar nas asas do vento, no rumo do infinito.”


O homem, que invejava a árvore e queria utilizá-la para destruir o corpo, meditou, sorriu, agradeceu a mensagem oportuna e retomando o ânimo, saiu confiante, seguindo adiante, sem mais reclamar.




FRANCO, Divaldo Pereira pelo Espírito Eros. Do livro Em algum lugar do futuro, 2.ed, 1987, p. 07-08.

terça-feira, novembro 24, 2015

Lição de sabedoria - Eros





Lição de sabedoria

Eros


A ânsia de conhecimento atormentava o jovem, que mergulhava no estudo sem parar.


Inconformado ante os próprios limites, certo dia buscou um sábio em meditação e indagou-lhe, ansioso:


- Tenho intentado adquirir a sabedoria desde quando comecei a pensar. 


Leio e caço informações em toda parte, exaurindo-me, às vezes, diante de tanto por aprender. 


Quando, porém, me poderei considerar pleno, satisfeito diante do que haja armazenado em saber?


O mestre fitou-o, compreensivo, e respondeu:


- Quando lograres a paz, libertando-te da ambição e da ansiedade.


- Isto, porém, - retrucou, apressado - fará de mim um místico e não um sábio.


- Equivocas-te - esclareceu o pensador, tranquilo. 


- A paz advirá da consciência harmonizada em decorrência de haver compreendido que se possui “sabedoria, quando não se sabe e se sabe que não se sabe; e, quando se sabe, saber que se sabe”, não ambicionando o conhecimento absoluto que só o Criador possui. 


A presunção faz parecer que se sabe o que não se sabe; e a insegurança do saber, em falsa humildade, afirma que não se sabe o que em verdade se sabe. 


O homem é sábio quando sabe o quão pouco sabe...


O moço, que buscava mais a proeminência do conhecimento do que a sabedoria, ferido no brio, afastou-se, resmungando, decepcionado, demonstrando o quanto ainda lhe faltava para ser um sábio.


Em toda parte havia experimentado a incompreensão alheia e a dor se lhe agasalhava na alma.



FRANCO, Divaldo Pereira pelo Espírito Eros. Do livro Em algum lugar do futuro, 2.ed, 1987, p. 08.


segunda-feira, novembro 23, 2015

Motivos de felicidade - Eros






Motivos de felicidade

Eros


Um ancião estuava de alegria, à margem do caminho, e cantava um hino de louvor à vida.


Um passante pessimista, magoado com tanto júbilo, indagou-lhe agressivo:


- Por que tal felicidade? 


Será porque a morte já te espreita?


- Não é por isso; mas por três outros motivos - respondeu o idoso. 


- Primeiro, porque num Universo onde a vida estua, só o homem pensa e eu sou um homem. 


Segundo, porque a dúvida que a tantos atormenta, não encontra agasalho em mim: sou um homem de fé. 


E, por fim, porque todos sabemos que o corpo é de breve duração e eu sou um homem que tem vivido muito. 


A morte, que a todos espreita em todas as idades, ainda não se recordou do mim; quando, porém, chegar, será muito bem recebida.


“Não tenho razão para ser feliz?”




FRANCO, Divaldo Pereira pelo Espírito Eros. Do livro Em algum lugar do futuro, 2.ed, 1987, p. 07.


Amélie Gabrielle Boudet - Homenagem pelos 220 Anos





"Sua existência inteira foi um poema cheio de coragem, perseverança, caridade e sabedoria".



Amélie Gabrielle Boudet : Homenagem pelos 220 Anos


Madame Rivail (Sra. Allan Kardec) nasceu em Thiais, cidade do menor e mais populoso Departamento francês - o Sena, aos 2 do Frimário do ano IV, segundo o Calendário Republicano então vigente na França, e que corresponde a 23 de Novembro de 1795.



Filha de Julien-Louis Boudet, proprietário e antigo tabelião, homem portanto bem colocado na vida, e de Julie-Louise Seigneat de Lacombe, recebeu, na pia batismal o nome de Amélie-Gabrielle Boudet.



A menina Amélie, filha única, aliando desde cedo grande vivacidade e forte interesse pelos estudos, não foi um problema para os pais, que, a par de fina educação moral, lhe proporcionaram apurados dotes intelectuais.



Após cursar o colégio primário, estabeleceu-se em Paris com a família, ingressando numa Escola Normal, de onde saiu diplomada em professora de primeira  classe.



Revela-nos o Dr. Canuto de Abreu que a senhorinha Amélie também foi professora de Letras e Belas Artes, trazendo de encarnações passadas a tendência inata, por assim dizer, para a poesia e o desenho. 


Culta e inteligente, chegou a dar à luz três obras, assim nomeadas: "Contos Primaveris", 1825; "Noções de Desenho", 1826; "O Essencial em Belas Artes", 1828.



Vivendo em Paris, no mundo das letras e do ensino, quis o Destino que um dia a Srta. Amélie Boudet deparasse com o Professor Hippolyte Denizard Rivail.



De estatura baixa, mas bem proporcionada, de olhos pardos e serenos, gentil e graciosa, vivaz nos gestos e na palavra, denunciando inteligência admirável, Amélie Boudet, aliando ainda a todos esses predicados um sorriso terno e bondoso, logo se fez notar pelo circunspecto Prof. Rivail, em quem reconheceu, de imediato, um homem verdadeiramente superior, culto, polido e reto.



Em 6 de Fevereiro de 1832, firmava-se o contrato de casamento. 


Amélie Boudet, tinha nove anos mais que o Profº. Rivail, mas tal era a sua jovialidade física e espiritual, que a olhos vistos aparentava a mesma idade do marido. 


Jamais essa diferença constituiu entrave à felicidade de ambos.


Pouco tempo depois de concluir seus estudos com Pestalozzi, no famoso castelo suíço de Zahringen (Yverdun), o Profº. Rivail fundara em Paris um Instituto Técnico, com orientação baseada nos métodos pestalozzianos. 


Madame Rivail associou-se ao esposo na afanosa tarefa educacional que ele vinha desempenhando no referido Instituto havia mais de um lustro.



Grandemente louvável era essa iniciativa humana e patriótica do Profº. Rivail, pois, não obstante as leis sucessivas decretadas após a Revolução Francesa em prol do ensino, a instrução pública vivia descurada do Governo, tanto que só em 1833, pela lei Guizot, é que oficial e definitivamente ficaria estabelecido o ensino primário na França.



Em 1835, o casal sofreu doloroso revés. 


Aquele estabelecimento de ensino foi obrigado a cerrar suas portas e a entrar em liquidação. 


Possuindo, porém, esposa altamente compreensiva, resignada e corajosa, fácil lhe foi sobrepor-se a esses infaustos acontecimentos. Amparando-se mutuamente, ambos se lançaram a maiores trabalhos. 


Durante o dia, enquanto Rivail se encarregava da contabilidade de casas comerciais, sua esposa colaborava de alguma forma na preparação dos cursos gratuitos que haviam organizado na própria residência, e que funcionaram de 1835 a 1840.



À noite, novamente juntos, não se davam a descanso justo e merecido, mas improdutivo. 


O problema da instrução às crianças e aos jovens tornara-se para Profº. Rivail, como o fora para seu mestre Pestalozzi, sempre digno da maior atenção.


Por isso, até mesmo as horas da noite ele as dividia para diferentes misteres relacionados com aquele problema, recebendo em todos a cooperação talentosa e espontânea de sua esposa. 


Além de escrever novas obras de ensino, que, aliás, tiveram grande aceitação, o Profº. Rivail realizava traduções de obras clássicas, preparava para os cursos de Lévi-Alvarès, frequentados por toda a juventude parisiense do bairro de São Germano, e se dedicava ainda, em dias certos da semana, juntamente com sua esposa, a professorar as matérias estatuídas para os já referidos cursos gratuitos.



"Aquele que encontrar uma mulher boa, encontrará o bem e achará gozo no Senhor" - disse Salomão. 


Amélie Boudet era dessas mulheres boas, nobres e puras, e que, despojadas das vaidades mundanas, descobrem no matrimônio missões nobilitantes a serem desempenhadas.


Nos cursos públicos de Matemáticas e Astronomia que o Profº. Rivail bi-semanalmente lecionou, de 1843 a 1848, e aos quais assistiram não só alunos, que também professores, no "Liceu Polimático" que fundou e dirigiu até 1850, não faltou em tempo algum o auxilio eficiente e constante de sua dedicada consorte.



Todas essas realizações e outras mais, a bem do povo, se originaram das palestras costumeiras entre os dois cônjuges, mas, como salientou a Condessa de Ségur, deve-se principalmente à mulher, as inspirações que os homens concretizam. 


No que toca à Madame Rivail, acreditamos que em muitas ocasiões, além de conselheira, foi ela a inspiradora de vários projetos que o marido pôs em execução. 


Aliás, é o que nos confirma o Sr. P. J. Leymarie ( que com ambos privara ) ao declarar que Kardec tinha em grande consideração as opiniões de sua esposa.



Graças principalmente às obras pedagógicas do professor Rivail, adotadas pela própria Universidade de França, e que tiveram sucessivas edições, ele e senhora alcançaram uma posição financeira satisfatória.



O nome Denizard Rivail tornou-se conhecido nos meios cultos e além do mais bastante respeitado. 


Estava aberto para ele o caminho da riqueza e da glória, no terreno da Pedagogia. 


Sobrar-lhe-ia, agora, mais tempo para dedicar-se à esposa, que na sua humildade e elevação de espírito jamais reclamara coisa alguma.



A ambos, porém, estava reservada uma missão, grandiosa pela sua importância universal, mas plena de exaustivos trabalhos e dolorosos espinhos.



O primeiro toque de chamada verificou-se em 1854, quando o Prof. Rivail foi atraído para os curiosos fenômenos das "mesas girantes", então em voga no Mundo todo. 


Outros convites do Além se seguiram, e vemos, em meados de 1855, na casa da Família Baudin, o Profº. Rivail iniciar os seus primeiros estudos sérios sobre os citados fenômenos, entrevendo, ali, a chave do problema que durante milênios viveu na obscuridade.



Acompanhando o esposo nessas investigações, era de se ver a alegria emotiva com que ela tomava conhecimento dos fatos que descerravam para a Humanidade novos horizontes de felicidade. 


Após observações e experiências inúmeras, o professor Rivail pôs mãos à maravilhosa obra da Codificação, e é ainda de sua cara consorte, então com 60 anos, que ele recebe todo o apoio moral nesse cometimento. 


Tornou-se ela verdadeira secretária do esposo, secundando-o nos novos e bem mais árduos trabalhos que agora lhe tomavam todo o tempo, estimulando-o, incentivando-o no cumprimento de sua missão.



Sem dúvida, os espíritas, muito devemos a Amélie Boudet e estamos de acordo com o que acertadamente escreveu Samuel Smiles: os supremos atos da mulher geralmente permanecem ignorados, não saem à luz da admiração do mundo, porque são feitos na vida privada, longe dos olhos do público, pelo único amor do bem.


O nome de Madame Rivail enfileira-se assim, com muita justiça, entre os de inúmeras mulheres que a História registrou como dedicadas e fiéis colaboradoras dos seus esposos, sem as quais talvez eles não levassem a termo as suas missões. 


Tais foram, por exemplo, as valorosas esposas de Lavoisier, de Buckland, de Flaxman, de Huber, de Sir William Hamilton, de Stuart Mill, de Faraday, de Tom Hood, de Sir Napier, de Pestalozzi, de Lutero, e de tantos outros homens de gênio. 


A todas essas Grandes Mulheres, além daquelas muito esquecidas pela História, a Humanidade é devedora eterna!



Lançado O Livro dos Espíritos, da lavra de Allan Kardec, pseudônimo que tomou o Prof. Rivail, este, meses depois, a 1o. de Janeiro de 1858, com o apoio tão somente de sua esposa, deu a lume o primeiro número da "Revue Spirite", periódico que alcançou mais de um século de existência grandemente benéfica ao Espiritismo.



Havia cerca de seis meses que na residência do casal Rivail, então situada à Rua dos Mártires n. 8, se efetuavam sessões bastante concorridas, exigindo da parte de Madame Rivail uma série de cuidados e atenções, que por vezes a deixavam extenuada. 


O local chegou a se tornar apertado para o elevado número de pessoas que ali compareciam, de sorte que em Abril de 1858 Allan Kardec fundava, fora do seu lar, a "Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas". 


Mais uma obra de grave responsabilidade!



Tomar tais iniciativas naquela recuada época, em que o despotismo clerical ainda constituía uma força, não era tarefa para muitos. 


Havia necessidade de larga dose de devotamento, firmeza de vistas e verdadeiro espírito de sacrifício.



Ao casal Rivail é que coube, apesar de todos os escolhos e perigos que se lhe deparariam em a nova estrada, empreender, com a assistência e proteção do Alto, a maior revolução de idéias de que se teve notícia nos meados do século XIX.



Allan Kardec foi alvo do ódio, da injúria, da calúnia, da inveja, do ciúme e do despeito de inimigos gratuitos, que a todo custo queriam conservar a luz sob o alqueire.



Intrigas, traições, insultos, ingratidões, tudo de mal cercou o ilustre reformador, mas em todos os momentos de provas e dificuldades sempre encontrou, no terno afeto de sua nobre esposa, amparo e consolação, confirmando-se essas palavras de Simalen: "A mulher é a estrela de bonança nos temporais da vida."



Com vasta correspondência epistolar, proveniente da França e de vários outros países, não fosse a ajuda de sua esposa nesse setor, sem dúvida não sobraria tempo para Allan Kardec se dedicar ao preparo dos livros da Codificação e de sua revista.



Uma série de viagens ( em 1860, 1861, 1862, 1864, etc, ) realizou Kardec, percorrendo mais de vinte cidades francesas, além de várias outras da Suíça e da Bélgica, em todas semeando as idéias espíritas. 


Sua veneranda consorte, sempre que suas forças lhe permitiam, acompanhou-o em muitas dessas viagens, cujas despesas, cumpre informar, corriam por conta do próprio casal. 


Parafraseando o escritor Carlyle, poder-se-ia dizer que Madame Allan Kardec, pelo espaço de quase quarenta anos, foi a companheira amante e fiel do seu marido, e com seus atos e suas palavras sempre o ajudou em tudo quanto ele empreendeu de digno e de bom.



Aos 31 de Março de 1869, com 65 anos de idade, desencarnava, subitamente, Allan Kardec, quando ultimava os preparativos para a mudança de residência. 


Foi uma perda irreparável para o mundo espiritista, lançando em consternação a todos quantos o amaram. 


Madame Allan Kardec, quer partilhara com admirável resignação as desilusões e os infortúnios do esposo, agora, com os cabelos nevados pelos seus 74 anos de existência e a alma sublimada pelos ensinos dos Espíritos do Senhor, suportaria qualquer realidade mais dura. 


Ante a partida do querido companheiro para a Espiritualidade, portou-se como verdadeira espírita, cheia de fé e estoicismo, conquanto, como é natural, abalada no profundo do ser.



No cemitério de Montmartre, onde, com simplicidade, aos 2 de Abril se realizou o sepultamento dos despojos do mestre, comparecia uma multidão de mais de mil pessoas. 


Discursaram diversos oradores, discípulos dedicados de Kardec, e por último o Sr. E. Muller, que logo no princípio do seu elogio fúnebre ao querido extinto assim se expressou: 


"Falo em nome de sua viúva, da qual lhe foi companheira fiel e ditosa durante trinta e sete anos de felicidade sem nuvens nem desgostos, daquela que lhe compartiu as crenças e os trabalhos, as vicissitudes e as alegrias, e que se orgulhava da pureza dos costumes, da honestidade absoluta e do desinteresse sublime do esposo; hoje, sozinha, é ela quem nos dá a todos o exemplo de coragem, de tolerância, do perdão das injúrias e do dever escrupulosamente cumprido."



Madame Allan Kardec recebeu da França e do estrangeiro, numerosas e efusivas manifestações de simpatia e encorajamento, o que lhe trouxe novas forças para o prosseguimento da obra do seu amado esposo.



Desejando os espiritistas franceses perpetuar num monumento o seu testemunho de profundo reconhecimento à memória do inesquecível mestre, consultaram nesse sentido a viúva, que, sensibilizada com aqueles desejos humanos mas sinceros, anuiu, encarregando desde logo uma comissão para tomar as necessárias providências. 


Obedecendo a um desenho do Sr. Sebille, foi então levantado no cemitério do Père-Lachaise um dólmen, constituído de três pedras de granito puro, em posição vertical, sobre as quais se colocou uma quarta pedra, tabular, ligeiramente inclinada, e pesando seis toneladas. 


No interior deste dólmen, sobre uma coluna também de pedra, fixou-se um busto, em bronze, de Kardec.



Esta nova morada dos despojos mortais do Codificador foi inaugurada em 31 de Março de 1870 , e nessa ocasião o Sr. Levent, vice-presidente da "Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas", discursou, a pedido de Madame Allan Kardec, em nome dela e dos amigos.



Cerca de dois meses após o decesso do excelso missionário de Lyon, sua esposa, no desejo louvável de contribuir para a realização dos plano futuros que ele tivera em mente, e de cujas obras, revista e Livraria passou a ser a única proprietária legal, houve por bem, no interesse da Doutrina, conceder todos os anos certa verba para uma "Caixa Geral do Espiritismo", cujos fundos seriam aplicados na aquisição de propriedades, a fim de que pudessem ser remediadas quaisquer eventualidades futuras.



Outras sábias decisões foram por ela tomadas no sentido de salvaguardar a propaganda do Espiritismo, sendo, por isso, bastante apreciado pelos espíritas de todo o Mundo o seu nobre desinteresse e devotamento.



Apesar de sua avançada idade, Madame Allan Kardec demonstrava um espírito de trabalho fora do comum, fazendo questão de tudo gerir pessoalmente, cuidando de assuntos diversos, que demandariam várias cabeças. 


Além de comparecer à reuniões, para as quais era convidada, todos os anos presidia à belíssima sessão em que se comemorava o Dia dos Mortos, e na qual, após vários oradores mostrarem o que em verdade significa a morte à luz do Espiritismo, expressivas comunicações de Espíritos Superiores eram recebidas por diversos médiuns.



Se Madame Allan Kardec - conforme se lê em Revue Spirite de 1869 - se entregasse ao seu interesse pessoal, deixando que as coisas andassem por si mesmas e sem preocupação de sua parte, ela facilmente poderia assegurar tranqüilidade e repouso à sua velhice. 


Mas, colocando-se num ponto de vista superior, e guiada, além disso, pela certeza de que Allan Kardec com ela contava para prosseguir, no rumo já traçado, a obra moralizadora que lhe foi objeto de toda a solicitude durante os últimos anos de vida, Madame Allan Kardec não hesitou um só instante. Profundamente convencida da verdade dos ensinos espíritas, ela buscou garantir a vitalidade do Espiritismo no futuro, e, conforme ela mesma o disse, melhor não saberia aplicar o tempo que ainda lhe restava na Terra, antes de reunir-se ao esposo.



Esforçando-se por concretizar os planos expostos por Allan Kardec em "Revue Spirite" de 1868, ela conseguiu, depois de cuidadosos estudos feitos conjuntamente com alguns dos velhos discípulos de Kardec, fundar a "Sociedade Anônima do Espiritismo".



Destinada à vulgarização do Espiritismo por todos os meios permitidos pelas leis, a referida sociedade tinha, contudo, como fito principal, a continuação da "Revue Spirite", a publicação das obras de Kardec e bem assim de todos os livros que tratassem do Espiritismo.



Graças, pois, à visão, ao empenho, ao devotamento sem limites de Madame Allan Kardec, o Espiritismo cresceu a passos de gigante, não só na França, que também no Mundo todo.



Estafantes eram os afazeres dessa admirável mulher, cuja idade já lhe exigia repouso físico e sossego de espírito. 


Bem cedo, entretanto, os Céus a socorreram. 


O Sr. P. G. Leymarie, um dos mais fervorosos discípulos de Kardec desde 1858, médium, homem honesto e trabalhador incansável, assumiu em 1871 a gerência da Revue Spirite e da Livraria, e logo depois, com a renúncia dos companheiros de administração da sociedade anônima, sozinho tomou sob os ombros os pesados encargos da direção. 


Daí por diante, foi ele o braço direito de Madame Allan Kardec, sempre acatando com respeito as instruções emanadas da venerável anciã, permitindo que ela terminasse seus dias em paz e confiante no progresso contínuo do Espiritismo.



Parecendo muito comercial, aos olhos de alguns espíritas puritanos, o título dado à Sociedade, Madame Allan Kardec, que também nunca simpatizara com esse título, mas que o aceitara por causa de certas conveniências, resolveu, na assembléia geral de 18 de Outubro de 1873, dar-lhe novo nome: "Sociedade para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec", satisfazendo com isso a gregos e troianos.



Muito ainda fez essa extraordinária mulher a prol do Espiritismo e de todos quantos lhe pediam um conselho ou uma palavra de consolo, até que em 21 de Janeiro de 1883, às 5 horas da madrugada, docemente, com rara lucidez der espírito, com aquele mesmo gracioso e meigo sorriso que sempre lhe brincava nos lábios, desatou-se dos últimos laços que a prendiam à matéria.



A querida idosa tinha então 87 anos, e nessa idade, contam os que a conheceram, ainda lia sem precisar de óculos e escrevia ao mesmo tempo corretamente e com letra firme.



Aplicando-lhe as expressões de célebre escritor, pode-se dizer, sem nenhum excesso, que "sua existência inteira foi um poema cheio de coragem, perseverança, caridade e sabedoria".



Compreensível, pois, era a consternação que atingiu a família espírita em todos os quadrantes do globo. 


De acordo com o seus próprios desejos, o enterro de Madame Allan Kardec foi simples e espiriticamente realizado, saindo o féretro de sua residência, na Avenida e Vila Ségur n. 39, para o Père-Lachaise, a 12 quilômetros de distância.



Grande multidão, composta de pessoas humildes e de destaque, compareceu em 23 de Janeiro às exéquias junto ao dólmen de Kardec, onde os despojos da velhinha foram inumados e onde todos os anos, até à sua desencarnação, ela compareceu às solenidades de 31 de março.



Na coluna que suporta o busto do Codificador foram depois gravados, à esquerda, esses dizeres em letras maiúsculas: AMÈLIE GABRIELLE BOUDET - VEUVE ALLAN KARDEC - 21 NOVEMBRE 1795 - 21 JANVIER 1883.



No ato do sepultamento falaram os Srs. P.G. Leymarie, em nome de todos os espíritas e da "Sociedade para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec", Charles Fauvety, ilustre escritor e presidente da "Sociedade Científica de Estudos Psicológicos", e bem assim representantes de outras Instituições e amigos, como Gabriel Delanne, Cot, Carrier, J. Camille Chaigneau, poeta e escritor, Lecoq, Georges Cochet, Louis Vignon, que dedicou delicados versos à querida extinta, o Dr. Josset e a distinta escritora, a Sra. Sofia Rosen-Dufaure, todos fazendo sobressair os reais méritos daquela digna sucessora de Kardec. Por fim, com uma prece feita pelo Sr. Warroquier, os presentes se dispersaram em silêncio.



A nota mais tocante daquelas homenagens póstumas foi dada pelo Sr. Lecoq. 


Leu ele, para alegria de todos, bela comunicação mediúnica de Antonio de Pádua, recebida em 22 de Janeiro, na qual esse iluminado Espírito descrevia a brilhante recepção com que elevados Amigos do Espaço, juntamente com Allan Kardec, acolheram aquele ser bem aventurado.



No improviso do Sr. P.G. Leymarie, este relembrou, em traços rápidos, algo da vida operosa da veneranda extinta, da sua nobreza d'alma, afirmando, entre outras coisas, que a publicação tanto de O Livro dos Espíritos, quanto da Revue Spirite, se deveu em grande parte à firmeza de ânimo, à insistência, à perseverança de Madame Allan Kardec.



Não deixando herdeiros diretos, pois que não teve filhos, por testamento fez ela sua legatária universal a "Sociedade para Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec". 


Embora uma parenta sua, já bem idosa, e os filhos desta intentassem anular essas disposições testamentárias, alegando que ela não estava em perfeito juízo, nada, entretanto, conseguiram, pois as provas em contrário foram esmagadoras.



Em 26 de Janeiro de 1883, o conceituado médium parisiense Sr. E. Cordurié recebia espontaneamente uma mensagem assinada pelo Espírito de Madame Allan Kardec, logo seguida de outra, da autoria de seu esposo. 


Singelas na forma, belas nos conceitos, tinham ainda um sopro de imortalidade e comprovavam que a vida continua...





FONTE


FEPARANA. Amèlie Gabrielle Boudet Disponível em http://www.feparana.com.br/biografia.php?cod_biog=27.Acesso: 08 NOV 2015.