quarta-feira, outubro 27, 2021

5 SOBRE A PREGUIÇA - Cornélio Pires

 


5 SOBRE A PREGUIÇA


Cornélio Pires


Tenho em mãos sua consulta,

Minha prezada Larissa,

Você procura por nós,

Informes sobre a preguiça.


Preguiça mesmo no Além,

É uma sombra malfazeja,

Que o nosso espírito abraça,

Contra si próprio onde esteja.


É treva de obsessão,

Tão forte aí quanto aqui,

Moléstia do pensamento

Que a pessoa esconde em si.


A preguiça escuta o verbo

De quem procura ajudar,

A prova, aceita, agradece,

Depois se põe a queixar.


Fala que anseia servir,

Dia a dia, hora por hora,

Que o trabalho é sempre a trilha

Por onde a vida melhora.


Afirma que a vida é luta,

Conhece o próprio dever,

Mas apresenta as razões

Porque não pode atender.


Preguiça não evolui,

Diz ela: — porque não tem,

Palavra de voz amiga

Nem proteção de ninguém.


As lágrimas que carrega

Só ela as vê como são,

Tem problemas que não cessam,

Tem família em provação.


Traz a saúde imperfeita

Embora reze com fé,

Suporta a cabeça fraca,

Carrega fogo no pé.


Tem cólica, batedeira,

Dor no fígado e no baço,

De dia, tudo é tristeza,

De noite, tudo é cansaço.


Sente aflição e azedume,

Sofre a queda dos cabelos,

Caminha de perna bamba,

Tem dores nos tornozelos.


Padece angústia constante,

Vê fel por todos os lados,

Alega a perseguição

De espíritos atrasados.


Quando está caindo chuva

Sofre zelos naturais,

Quando o calor aparece

Diz que o calor é demais.


Não se aguenta com vizinhos

Que estão sempre contra ela,

Em casa nunca dispõe

De apoio da parentela.


Preguiça, prezada irmã,

É sempre uma cousa assim:

Um sofrimento parado

Numa doença sem fim.


Preguiça, antiga moléstia,

É praga na criatura,

Recebe muito remédio

Mas só serviço é que cura.

 

XAVIER, Francisco Cândido pelo Espírito Cornélio Pires. Retratos da vida. Cap.  5.

 

 

terça-feira, outubro 26, 2021

4 HERANÇA NO ALÉM - Cornélio Pires

 


5 HERANÇA NO ALÉM


Cornélio Pires


Você deseja saber

Meu caro Joaquim Monforte,

Dentre os assuntos de herança,

O que há depois da morte.


Respondendo a sua carta

Cumpro apenas um dever;

Herança dá muita encrenca,

Você nem queira saber.


Decerto que há muita gente,

Caminhando ao nosso lado,

Que sabe usar com Jesus

Os bens de qualquer legado.


Entretanto, em muitos casos,

Nos passos de muitas vidas,

Heranças trazem problemas

Às pessoas mais queridas.


Amparo que você queira

Fazer, em verdade sã,

Auxilio, bênção, favor,

Não deixe para amanhã.


Nosso Téo deixou ao genro

A fazenda Carolina,

O moço inexperiente

Descambou na jogatina.


Tanta injúria de inventário

Recebeu Nhô Chico Bentes

Que se fez obsessor

De todos os seus parentes.


Nhá Nicota ajuntou casas

Em favor da própria filha;

Viu a filha envenenada

Numa questão de partilha.


Nhô Tino deixou aos filhos,

A fazenda da Tronqueira

E os rapazes sem trabalho

Caíram na bebedeira.


Calma legou à filha

Todas as lojas de um prédio:

A moça largou o estudo,

Depois matou-se de tédio.


Teotônio legou milhões

Para o bisneto Tadeu;

Ao vê-lo abusar de drogas

O coitado enloqueceu.


Nicão viu tantas loucuras

Na viúva Dona Criste,

Que deseja ir para o inferno,

Mas o inferno não existe.


Joaninha ao achar as filhas,

Em sombra, gozo e moleza,

Hoje pede vida nova

Afundada na pobreza.


Se você tem para dar

Não exija condição,

Dê trabalho e caridade,

Paz, amor e educação.


Bendita seja a pessoa

Que recebendo uma herança,

Sabe espalhar benefício,

Conforto, luz e esperança.


No entanto, muito legado

É mero apoio ilusório,

Há muito desencarnado

Que enlouqueceu no cartório.


XAVIER, Francisco Cândido pelo Espírito Cornélio Pires. Retratos da vida. Cap. 4.

segunda-feira, outubro 25, 2021

3 OFENSA E RESSENTIMENTO - Cornélio Pires

 




3 OFENSA E RESSENTIMENTO

Cornélio Pires


Você deseja de nós

Meu caro Luiz Sarmento,

Alguma fala qualquer,

Em torno ao ressentimento.


Diz você: “cá neste mundo

Não sei como me exprimir,

Se não aprendo, não sinto,

Se aprendo, devo sentir.


Se recebo alguma ofensa,

Zombaria ou pescoção,

Se nada disso me fere

Como guardar a lição?”


Sua palavra bem feita

Lançando o assunto no ar,

Dá muita filosofia,

Muita cousa que pensar...


Em toda questão de ofensa,

É necessário se insista:

Pede a vida que se mude,

O nosso ponto de vista.


Quem é aquele que ofende?

As vezes é um pobre louco...

De outras vezes, um doente

Que enlouquece pouco a pouco.


De que modo condenar

Quando me cabe entender,

Se todos somos no mundo

Capazes de adoecer?


Por isto, ressentimento

Dos enganos que se leva,

Quando embutido no peito,

Lembra um novelo de treva.


O ponto grave na ofensa

Está sempre na pessoa,

Que condena e se lastima,

Que se arrasa e não perdoa.


Surge a mágoa... Leve sombra

Numa estranha formação,

Depois recorda serpente

Por dentro do coração.


Faz tristeza, inimizade,

Vida irritada e insegura,

Discórdia, injúria, sarcasmo,

Separação, amargura...


Quem guarda ressentimento,

Note bem, veja você:

Coloca o mal no que sabe,

Veneno em tudo o que vê.


Ressentimento onde esteja

Traz sempre como é notório,

Muita doença imprevista,

Muita ficha em sanatório.


Se você sofreu ofensa,

Lembre o perdão de Jesus,

Quem se ofende ajunta sombras,

Quem perdoa tem mais luz.


Contra alguém, seja quem for,

Que nunca se erga a voz,

A justiça vem de Deus,

O agravo é que vem de nós.


Mesmo entre pedras e lutas,

O amor trabalha e auxilia...

O tempo emenda a nós todos,

Cada qual tem o seu dia.


XAVIER, Francisco Cândido pelo Espírito Cornélio Pires. Retratos da vida. Cap.3.


domingo, outubro 24, 2021

2 PARENTESCO E REENCARNAÇÃO - Cornélio Pires



 

2 PARENTESCO E REENCARNAÇÃO

Cornélio Pires


Você nos pede por carta,

Meu prezado amigo João,

Que a gente escreva no tema:

Família e reencarnação.


Assunto vasto, meu caro,

Tão vasto que já nem sei

Andar nesse labirinto

Mesmo andando à luz de lei.


O lar parece uma empresa

De lucro certo e bem vindo,

Surge na Terra em dois sócios,

Depois a casa vai indo...


O casal primeiramente

Celebra doces afetos,

Em seguida, ganha filhos

E os filhos arranjam netos.


Logo após é um grupo grande

Ao qual, de forma concisa,

A gente volta em criança

Procurando o que precisa.


A luta chega... Entretanto,

O progresso vale a pena.

É isso aí... Cada berço

Põe a vida em nova cena.


O mundo lembra um teatro,

Cuja função nunca cessa,

Toda casa lembra um palco,

Cada família é uma peça.


O espetáculo é de todos,

A prova é parte comum,

Mas proveito e aprendizado

São coisas de cada um...


Antes do berço rogamos

A luta que nos apraz,

Depois, muito comumente,

Buscamos voltar atrás.


Requisitamos em prece

Inimigos por parentes

E ao revê-los, ombro a ombro,

Reclamamos descontentes.


Às vezes, a filha ingrata

É aquela jovem sofrida

Que abandonamos à rua

Nos prazeres de outra vida.


Filho criando problema,

Tristeza, mágoa, perigo:

Adversário de outrora

Cobrando débito antigo.


Noras cruéis, genros brutos,

Pai tirânico e violento,

São contas do crediário

Resgatado a sofrimento...


Rusgas, brigas e desgostos

Espinheirais do passado,

Pagamento a prestações

De culpas por atacado...


Nossos erros de outras eras,

Ódio, inveja, tentação,

Retornam pela família

Na lei da reencarnação.


Quem amou, quem deu de si,

Sobe de altura e lugar,

Quem fez sofrer vem sofrer,

Quem bateu vem apanhar.


Quem dos outros fez capacho,

Cria resgate severo,

Quem foge ao próprio dever

Vem de novo à estaca zero.


Parentela é escola santa

Sempre que a vemos daqui,

Cada qual encontra em casa

Aquilo que fez de si.


Ame, perdoe, sirva e ajude

Quanto ao mais, meu caro irmão,

Se você sofre em família,

Não reclame, aguente, João.



XAVIER, Francisco Cândido pelo Espírito Cornélio Pires. Retratos da vida, Cap 2.

sábado, outubro 23, 2021

1 CONVERSA DE COMPANHEIRO - Cornélio Pires

 



CONVERSA DE COMPANHEIRO


Cornélio Pires


Eis hoje, caro José,

Meu singelo parecer.

Em carta você me fala

Que só deseja morrer.


E anota com insegurança,

Dizendo espantado a mim:

— “Você me diga, Cornélio,

Se estou certo agindo assim.”


Tal assunto em sua ideia,

Tão lúcida quão travessa

Realmente não entendo

Como lhe vem à cabeça.


Posso afirmar-lhe, de pronto,

Na força de nossa fé : —

- Reajuste o próprio passo,

Não tente a morte, José.


Quem se esquece de viver,

Pensando em fim prematuro,

Acaba sem perceber

Caindo em salto no escuro.


Observe a Natureza:

Toda a vida se processa

Para serviço no tempo

Que não cogita de pressa.


O sol não registra idade,

A noite prepara o dia,

O fruto surge na hora,

Relógio não se abrevia.


Não falha a Obra de Deus

Cuja lei é a perfeição,

Todos temos lugar próprio,

Da estrela aos vermes do chão.


Morte, em si, é um velho marco

Na estrada de toda gente,

Aceitá-la é conformar se,

Provocá-la é diferente.


A Terra é um navio grande

Nas águas do Amor Divino,

Quem sai dele contra a ordem,

Noutro barco é clandestino.


E quem se faz clandestino,

No grau em que se subleva,

Encontra rudes lições

No caminho a que se leva.


Vivia pedindo a morte

Nossa amiga Dona Inês,

Acheia-a pior no Além,

Rogando um corpo outra vez.


Desanimou de viver

Nhô Nico da Tanajura,

Morreu mas vive isolado

Nas pedras da sepultura.


Xingando os filhos ingratos

Nhá Quina morreu aos poucos,

Mas vive cuidando agora

Dos netos muito mais loucos.


Por não suportar a nora,

Finou-se Olavo Vilela,

No Além não acha serviço

A não ser velar por ela.


Em não se ajustando ao genro,

Morreu Pio Avanhandava,

Hoje em dia quer ser filho

Do genro que detestava.


Por odiar a família

Morreu Marcelino Gaza,

Hoje, em luta, descobriu

Que está preso à própria casa.


Para fugir do trabalho

Finou-se o Juca Pulchério,

Mas hoje só sente paz

Se fica no cemitério.


Morreu Lino por pirraça

Contra a esposa Ana Sarmento,

Agora corre atrás dela,

Gritando arrependimento.


Conserve o seu próprio corpo,

É a medida que lhe peço;

Ele é seu campo de luta,

Sua enxada de progresso.


Não se descuide da vida

Nem viva no mundo às tontas,

A morte nos muda a casca

Mas não nos resolve as contas.


A morte que traz descanso,

Paz, reconforto, alegria

É aquela que nos procura

E chega sempre no dia.


Xavier, Francisco Cândido pelo Espírito Cornélio Pires. Retratos da vida, cap.1.