Pachelbel - Canon In D Major

domingo, agosto 09, 2015

O velho pai - Momento Espírita





O velho pai


O cenário é comum, a cena é singela. Num banco de jardim da casa estão sentados um homem idoso e um jovem.


O jovem lê o jornal, com atenção. O idoso parece imerso em algo indefinível.


Então, um pequeno pássaro pousa no arbusto próximo e canta. O homem parece despertar e indaga:


O que é aquilo? – Apontando com o dedo na direção da pequena ave.


O rapaz alça os olhos e diz, secamente: É um pardal.


A avezita saltita de um galho a outro e a pergunta se repete: O que é aquilo?


A resposta agora não é somente seca, mas também denota enfado: Já disse: é um pardal!


O pássaro voa do arbusto para a árvore, continuando na sua dança matinal.


O que é aquilo? – Soa de novo.


Agora, o rapaz se irrita e quase grita: É um pardal!


A ave, feliz, prossegue no seu bailar. Alça voo e parece desaparecer. Poucos segundos passados e retorna ao chão, bicando aqui, saltitando acolá.


O homem leva a mão aos olhos, como se desejasse ajustar a visão embaçada e, com natural curiosidade, pergunta:


O que é aquilo?


O filho responde, em altos brados: É um pardal! Já disse: um pardal.


E soletra, aos gritos: P - a – r - d – a – l. Você não entende?


O homem se ergue, sobe os degraus, adentra a casa, lento e decidido. Pouco depois, retorna com um velho caderno nas mãos.


A capa é bonita, denotando que foi guardado com cuidado, como se guardam preciosidades.


Abre-o, procura algo, depois o entrega ao rapaz, ainda inquieto e raivoso.


Leia! – Ele pede. E acrescenta: Em voz alta!


Há surpresa no moço, que lê pausada e cada vez com maior emoção: Hoje, meu filho caçula, que há uns dias completou três anos, estava sentado comigo, no parque, quando um pardal pousou na nossa frente.


Meu filho me perguntou vinte e uma vezes o que era aquilo e eu respondi em todas as vinte e uma vezes que era um pardal.


Eu o abracei todas as vezes que ele repetiu a pergunta, vez após vez, sem ficar bravo, sentindo afeição pelo meu inocente garotinho.


Então, o filho olha o pai. Há culpa e dor em sua alma.


Abraça-o, lacrimoso, beija-lhe a face, emoldurada pela barba por fazer.


Estreita-o, puxando-o para perto de si. E assim ficam: um coração ouvindo outro coração.


*   *   *


Cenas como essa acontecem todos os dias, em milhares de lares, em todo o mundo.


Nossos anciãos, de braços dados com Alzheimer, demência senil ou problemáticas outras, indagam, perguntam, questionam.


A memória recente lhes falha. Mergulhados em retalhos de lembranças do passado, não entendem porque recebem gritos como resposta.


Pensemos nisso! E se as lágrimas nos umedecerem os olhos, não tenhamos vergonha de abraçar com amor nosso velho pai, nossa mãe, vovó, vovô, madrinha, tia... Agora.




Redação do Momento Espírita, com base no curtíssima O que é aquilo? de Constantin Pilavios, da Movie Teller Films. Disponível no CD Momento Espírita, v. 16 e no livro  Momento Espírita, v. 9, ed. FEP. Disponível em www.momento.com.br

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