Pachelbel - Canon In D Major

sábado, dezembro 20, 2014

Simão, O Mendigo João de Deus





Simão, O Mendigo

João de Deus



Doente, pobre, velhinho,


o desditoso Simão,


arrimado a seu bordão,


andava devagarzinho...


Pés e mãos em chaga aberta,


lá ia o velho coitado!


enfermo, desamparado


e humilde na estrada incerta.


Cabelo todo branquinho


rugosa a face morena,


o pobre metia pena


a vagar pelo caminho...


De onde viera? Ora, quem


buscava saber ao certo?


vinha de longe ou de perto?


ninguém sabia, ninguém.


Só lhe sabiam do nome,


e que, em miséria, sem nada,


ele esmolava na estrada,


a fim de matar a fome.


Estendendo seu chapéu,


pedia, cheio de dor:


- Uma esmola, meu senhor,


por amor ao Pai do Céu!...


Mas, oh! Deus, que desalento


neste mundo de aflição!


Ninguém ouvia Simão


nas horas do sofrimento.


- Passai de largo! É leproso!...


Diziam homens cruéis –


- Oh! Não vos aproximeis


deste ancião perigoso!...


- Ah! Que graça! Põe-te à brisa!


exclamava outro passante –


nada de esmola ao tratante,


que este velho não precisa!...


O mendigo, nos seus ais,


dizia: - Viva a saúde!


Trabalhei enquanto pude,


agora, não posso mais...


Toda a gente lhe fugia,


ninguém lhe dava uma sopra,


nem um trapinho de roupa


para a noite da agonia.


Muito tempo era passado,


e o desditoso velhinho


sentia-se mais sozinho,


mais doente, mais cansado...


Chegou, enfim, um momento


em que o velho sofredor


caiu de frio e de dor


na estrada do sofrimento.


Caiu e sonhou, contente,


embora a sede e o cansaço,


que Jesus vinha do Espaço


dizendo-lhe, docemente:


“– Escuta, meu bom Simão,


não temas, querido amigo!


sê forte! Eu estou contigo.


chegaste à ressurreição.


Não chores. Estou aqui!...


terminou tua aflição,


estás em meu coração!


pensavas que te esqueci?


Enquanto o mundo enganado


atormentava-te ao peso


de zombaria e desprezo,


eu sempre estive ao teu lado.


Teus prantos e tuas dores


são, hoje, a luz que te veste


no campo do amor celeste,


repleto de eternas flores”.


E Jesus, em voz mais terna,


concluía: - “Vem Simão,


à doce consolação


do mundo de luz eterna!...


E Simão, chorando e rindo,


a seguir, ditoso, o Mestre,


esqueceu a dor terrestre,


no céu venturoso e lindo.


O caminho era de estrelas


de tão sublime matiz


que o pobre ria, feliz,


sem saber como entende-las.


No outro dia, ao reconforto


acharam Simão sem vida...


o mendigo estava morto.



XAVIER, Francisco Cândido pelo Espírito João de Deus.  Antologia Mediúnica Do Natal , Cap. 44.

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